“O milagre, disse o padre juntando as mãos, Que milagre perguntou o cornaca ao mesmo tempo que sentia a cabeça dar-lhe uma volta, Se o elefante fosse ajoelhar-se à porta da basílica, não te parece que seria um milagre, um dos grande milagres da nossa época, perguntou o sacerdote tornando a unir as mãos, Não sei nada de milagres, na minha terra, lá onde eu nasci, não os há desde que o mundo ficou criado, imagino que toda a criação terá sido um milagre pegado, mas depois acabaram-se, Agora estou a ver que afinal não és cristão, Vossa paternidade decidirá, a mim dera-me uma besuntadela de cristianismo e baptizado sou, mas talvez ainda se perceba o que está por baixo, …, Pelo que ainda espero de ti, perdoo-te as blasfémias, mas, quando isto terminar, terás de confessar-te, E que espera vossa paternidade de mim, Que leves o elefante à porta da basílica e o faças ajoelhar aí, Não serei capaz, Tenta-o, Imagine vossa paternidade que eu levo lá o elefante e ele se recusa a ajoelhar-se, embora eu não entenda muito destes assuntos, suponho que pior que não haver milagre é encontrar-se com um milagre falhado, Nunca terá sido falhado se dele ficaram testemunha, E quem vão ser essas testemunhas, Em primeiro lugar, toda a comunidade religiosa da basílica e quantos cristão dispostos consigamos reunir à entrada do templo, em segundo lugar a voz pública que, como sabemos, é capaz de jurar o que não viu e afirmar o que não sabe, Incluindo acreditar em milagres que nunca existiram, perguntou o cornaca, São esses os mais saborosos, dão trabalho a preparar, mas os esforço que pedem é em geral compensador, além disso, aliviamos de maiores responsabilidades os nossos santos, E as de deus, A deus nunca o importunamos para que faça um milagre, quando muito recorremos à virgem, que também é dotada de talentos taumatúrgicos, Quer-me parecer, disse o cornaca, que pela vossa igreja católica anda muito cinismo, Talvez, mas, se te falo com tanta franqueza, respondeu o sacerdote, é para que percebas que necessitamos mesmo esse milagre, esse ou outro qualquer, Porquê, Porque lutero, apesar de morto, anda a causar grande prejuízo à nossa santa religião.
(…)
Chegado perante a porta da basílica, perante uma multidão de testemunhas que por tempos vindouros irão certificar o milagre, o elefante, obedecendo a um ligeiro toque na orelha direita, dobrou os joelhos, não um, com o que já se daria por satisfeito o padre que viera com o requerimento, mas ambos, assim se vergando à majestade de deus no céu e dos seus representante na terra. … A assistência unanimemente, caía de joelhos e a múmia do glorioso santo antónio estremecia de gozo no túmulo.
(…)
Nessa mesma tarde, dois pombos-correios, um macho e uma fêmea, levantaram voo da basílica em direcção a trento levando a notícia do portentoso milagre.”
José Saramago, A viagem do elefante