Ele era de média estatura. Seu cabelo era acinzentado e comprido. Não me perguntem a cor dos olhos, usava uns óculos de sol. Apesar do ar tipo "louco fugido do manicómio versão filme a preto e branco", tudo parecia normal até ele actuar...
E actuou. Sentado num banco vazio, gritava, e gritava bem alto. Ria-se a enormes e forçadas gargalhadas, e os outros dele se riam. Uma galhofa. Eis que não é o meu espanto que, aquele cidadão de quem já pouco me admiraria, me conseguiu mesmo espantar, começando um monólogo (na prática um diálogo dirigido ao banco vazio que estava na frente dele) do estilo: "Oh Camões, eu sempre te disse, mas tu nunca acreditaste, andas sempre aí a escrever, Lusíadas para a frente, Lusíadas para trás...! AHAHAHAHA" - dizia ele, completamente fixo no banco que continuava vazio escutando as suas loucuras.
E eu ri-me. E ainda hoje me rio de outras expressões daquele senhor do comboio. "Aqui vem o rei, vem o rei, vem o rei. AHAHAHAHA" - cantava ele - "Braga, cidade de filósofos, de poetas, de reis e rainhas!!"
E não mais me esqueci dele.
Aonde quer que esteja, aqui vai um abraço de agradecimento ao senhor!
[Atenção que não é demente porque demente (aprendido em patologia geral) tem que apresentar falta de memória, e quem tanto cantava dava ideia de ter um texto teatral decorado.]
segunda-feira, 21 de maio de 2007
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1 comentário:
O que a mim me parece é que o Camões estaria mesmo lá e que o tal senhor de média estatura e cabelo acinzentado é dono e senhor daquele mundo do comboio onde existem reis, rainhas, filósofos e poetas. Que os intrusos que vão frequentando aquelas carruagens apenas de passagem não os vejam é problema deles. Se eu tivesse que viver no comboio também preferia passar o tempo com os poetas e filósofos, e com um Gin-Tonic na mão, do que com os estranhos que todos os dias vão e vêm.
;) Viva a parvoíce...
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